Bebi tuas palavras,
Nos vermelhos e ébrios luares,
Flores Azuis em quintais laranja,
Que povoavam fecundos os ares.
Embriagada dessas palavras
De tanto silêncio que me deste,
Do fundo de teu ser agreste,
Pensava serem descritivas paisagens,
O indecifrável das tuas mensagens.
As palavras que nunca dizias,
Bebia-as sofregamente,
Na languidez fatal dos dias,
No ardente calor de noites frias,
No trabalhar solitário da mente.
E estou dispersa e vagabunda,
Em todos os fonemas que não ouvi,
Eu sou aquela que se inunda,
Dos sonhos que nunca vivi.
E em sonhos tão pouco audazes,
Que eu até achava que tinha,
Esperei da tua boca, capazes,
Palavras que não me deixassem sozinha.

Desfocada, nas lágrimas,
Ou nesse vinho que ainda me dás,
Devaneios em luares claros,
Numa verdade escondida,
Que ora se mostra em dias raros,
Ora permanece bebida.
Agora os vinhos estão a azular,
São os barcos que cavalgam na pista,
De noite são sois a brilhar,
Pra quê sobriedade realista?
Fico ébria no registo,
Ressacando alvorada,
Trago no colo flores de xisto,
Em mundo bêbado de nada.
Este trago, este sorvo,
Já não tem sabor possível,
Sou já liquido e morro,
Em cor de vinho indefinível.
Contexto original das imagens:
portfólio de António Paulo in foto.sapo.pt
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